“La Grand Illusion”, de Jean Renoir (1937)

O filme de Jean Renoir “La Grand Illusion” de 1937 é um dos clássicos mais genuínos do cinema, tendo-se tornado mundialmente conhecido como um dos maiores filmes de todos os tempos. É uma bela peça que mostra a essência de um “realismo poético” em França, uma realidade demonstrada com melancolia e tristeza, da mesma maneira que Renoir expôs as fraquezas destes homens (e dos Homens) no seu filme.

Este filme é construido sobre acontecimentos verídicos, relatados por companheiros de Jean Renoir durante a Grande Guerra. Tem como cenário a 1ª Guerra Mundial (1914-18), onde dois franceses que sobrevoavam território inimigo são abatidos pelos alemães. São então capturados e levados para um campo de prisioneiros de guerra, campo esse onde os prisioneiros eram tratados com respeito e cavalheirismo, por um sistema que se regia pelo respeito mutuo, e baseado em anos de tradições – como diz Renoir, a 1ª Guerra Mundial era ainda uma guerra com classe e cavalheirismo.

Não existe neste filme herói e vilão, cada um tenta apenas viver da melhor forma possível e de acordo com as suas condições (monetárias e sociais). Apesar do regime que operava no campo lhes permitir uma vida bastante liberal, o sentimento da procura de liberdade estava presente nos prisioneiros. O sonho deles de retomar a vida que tinham, de presenciar as mudanças que operavam no mundo exterior, de retomar as suas crenças e cantar o seu próprio hino – defender o seu país e ter orgulho nele – faz surgir a falsa camaradagem, encorajada pela encarceração, que voltará, mais tarde, a levá-los até à dura realidade. De entre as várias tentativas de fuga a única que realmente teve sucesso está relacionada com o plano que o capitão Boeldieu desenvolveu onde, através de diversos episódios, se pode notar a referida lealdade aos protocolos aristocratas que se baseiam em anos de tradições.

Podemos assim dizer que todos estão no meio de uma guerra, mas apesar disso, vivem como uma pequena comunidade, onde todos se respeitam sob a hierarquia do lugar, reinando a camaradagem entre todos (tendo como exemplo a tentativa de contar aos recém-chegados oficiais ingleses da existência de um túnel semi-acabado num dos quartos).

Os alemães parecem entender e respeitar esse desejo de liberdade, apesar de terem de cumprir os seus deveres militares para que possam ser livres na sua própria pátria. Temos como exemplo a relação entre os dois comandantes, que se baseia no reflexo da sociedade aristocrata baseada na honra e ordem. Pode-se sentir que a melancolia do comandante Von Rauffenstein é simplesmente o desejo de poder socializar com os oficiais franceses em circunstâncias diferentes e menos severas.

Eles não procuram a liberdade por se sentirem enclausurados ou mal tratados, mas é sim o desejo de voltar a ter controlo sobre a sua própria vida sendo, a saudade da vida que antes tinham que fala por eles.

 

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O filme não aborda directamente a guerra, mas esta é retratada através das vivências dos soldados, ou seja, não aparece directamente num confronto ou batalha, como as que hoje podemos ver nos chamados “filmes de guerra”. É um filme sobre relações, gentes e das barreiras que as classes sociais criam nessas. A grande ilusão será, então, o fim dessas barreiras, a fraternidade e a igualdade entre os Homens, seja qual for o cenário onde estão inseridos.

Renoir, para criar o filme “A Grande Ilusão”, baseou-se numa história verídica de um companheiro – Pinssard – que, tal como ele, foi piloto durante a 1ª Guerra Mundial. Pinssard terá sido diversas vezes capturado, tendo conseguido fugir muitas dessas vezes dos campos de prisioneiros para onde era levado. Apesar do relato de uma evasão ser algo muito aliciante, não era o suficiente para o argumento do filme idealizado por Jean Renoir. Contou, por isso, com a colaboração do argumentista Charles Spaak, pois ambos partilhavam os mesmos ideais de fraternidade e amizade, sendo estes ideais e sentimentos a “grande ilusão” de que há pouco falávamos, e esta surge representada no filme em episódios que por vezes são hilariantes, como o caso do almoço recheado de iguarias como caviar e cognac, que tomou lugar em plena “cela” no campo onde foram feitos prisioneiros. Isto surge em oposição a outras ocasiões, onde se assume uma postura mais séria, reflexo do poder da autoridade ou até das tradições impostas pelas classes sociais a que os personagens pertencem, tendo como exemplo a revista do quarto pelos oficiais alemães, em que ocorre o confronto entre o capitão Von Rauffenstein e o capitão Boeldieu, onde a “palavra de honra” de Boeldieu chegava para assegurar que tudo estava de acordo com os regulamentos dos oficiais alemães. Nesta ocasião, Boeldieu questionou porque só a sua palavra era válida, à qual Rauffenstein responde “…a palavra de um Rosenthal, de um Marechal?”.

 

A técnica utilizada por Jean Renoir é simples, com recurso a planos longos e envolventes, que tornam todo o filme esteticamente mais coerente e mais focado na história do que nos recursos técnicos que podiam ter sido utilizados, apelando assim a um cinema mais realista. Renoir, ao substituir o plano pela cena, tornou o campo visual mais abrangente; conseguindo assim desta forma chegar mais facilmente ao público, e transmitir a sua visão da realidade. O destaque vai para a fotografia, que embora a preto e branco, pode-se bem observar os diversos locais onde o filme foi produzido, onde podemos incluir um castelo medieval; todas as localizações contam também com uma boa iluminação.

Focando-nos também no Sound-Design, podemos referir que a inexistência de banda sonora vem reforçar a tentativa de aproximação do real. Os únicos pontos no filme onde a música toma lugar são aqueles onde estão representadas acções realizadas pelos diversos personagens, notando-se em cenas como, por exemplo, no início do filme, em que um personagem (Jean Gabin) coloca um vinil a tocar, cantarolando por cima, enquanto esperava pela boleia que o iria levar a Josephina. Podemos referir também a sequência da revista feita pelos prisioneiros no campo de concentração, cujas músicas são tocadas em directo para a peça dos prisioneiros e alguns oficiais alemães que se encontravam a supervisionar quaisquer irregularidades que pudessem surgir.

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Apesar da enorme semelhança com a 2ª Guerra Mundial, na primeira Guerra Mundial ainda não havia Hitler, Nazis, politicas nacionalistas e preconceitos como o racismo, que fez esquecer ao mundo que os alemães também eram humanos. As cenas de relacionamento presentes na 1ª Guerra Mundial são o oposto ao verificado quase 20 anos depois, durante a 2ª Guerra, isto é, na 1ª Guerra Mundial, ambos os lados partilhavam relações onde existia o respeito mútuo. Era, então, mais civilizada e mais pura nas mentes do Homem.

Este filme, editado 2 anos antes da 2ª Grande Guerra, sobreviveu miraculosamente a esta. A sua história inclui grandes ovações em certos países, bem como grandes entraves em tantos outros: este filme foi proibido na Itália fascista, foi considerado perigoso para o regime nazista por Goebels, pois previa a tragédia na Guerra e publicita a esperança no futuro. Pensou-se então que todas as cópias haviam sido destruidas no decurso da guerra, tendo sido mais tarde descoberto pelas forças americanas em Munique, no ano de 1945, uma em perfeito estado de conservação.

A mensagem que o filme pretende transmitir é que mesmo que a guerra seja provocada pelas fraquezas do homem, não faz parte da sua natureza conviver com ela, e o verdadeiro espírito humano só pode ser encontrado sob a superfície dos acontecimentos grandiosos e bélicos.

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~ por jplebre em Janeiro 30, 2007.

2 Respostas to ““La Grand Illusion”, de Jean Renoir (1937)”

  1. “the perfect three” xD sim senhora, grande trabalho este =)) fizeste bem em tê-lo posto na net!
    *

  2. Republicou isto em Blog do Rogerinho.

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