…sobre o cinema dos balcãs

Numa altura em que se discute a identidade da Europa, num pós Maio-68, num pós-Muro de Berlim, devemos parar também para reflectir na identidade do “cinema Europeu”: será que é viável falar de um cinema Europeu? Ou sequer de um cinema nacional?

Numa primeira abordagem, o que é a Europa? Será esta o centro do Conhecimento e das bases usadas na regência do chamado “mundo civilizado”? Seja como for, a Europa é o mais “velho continente” humano, percorrido por centenas de povos com ideologias e conhecimentos diferentes, que através da sucessivas aculturações foram aperfeiçoando e divulgando estes por toda a Europa (e seguindo daqui para a America do Norte). Na Europa foi escrita a teoria da relatividade de Einstein, descoberta e posta em prática a democracia, elaboradas as bases do sistema judicial actual e foram divulgados os valores e saberes (para crentes ou não) apregoados pelo judaísmo e cristianismo. Ultimamente, assistimos a eventos simbólicos para a abolição das fronteiras, símbolos da Liberdade suprema, e assistimos à criação da moeda única e de comissões que criam políticas económicas comunitárias para o Velho Continente.

 

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“Passo Suspenso da Cegonha” de Theo Angelopoulos

 

Num mundo com tendência para uma crescente globalização, onde as fronteiras se abrem, começa a ser difícil definir um “cinema nacionalista” em cada país ou qualquer coisa que seja de facto inteiramente nacional. Sim, houve alturas como a da Nouvelle-vague francesa ou do neo-realismo italiano onde estas foram a marca de um cinema nacionalista, e não esqueçamos também a vitalidade dos Espanhois, o humor muito característico da Grã-Bretanha. Mas existe hoje um cinema nacional? Temos um exemplo bastante forte vindo do nosso “vizinho” Alejandro Amenabar, cujo “Tesis” ou “The Others” podia perfeitamente concorrer junto dos mais publicitados filmes de suspense/terror/fantásticos norte-americanos, ou o mais recente “Filhos do Homem” (uma produção internacional com realizador Europeu), cujos efeitos especiais competem com a sofisticação dos de Hollywood, ou um cinema individualista como o de Lars Von Trier que parece quebrar todas as regras (ou pelo menos as regras da “experiência do cinema” a que estamos habituados) ou as atmosferas surrealistas e poéticas de um Theo Angelopoulos no seu galadoardo “Eternidade e um Dia” . Mas, todos estes filmes, têm em comum uma enorme bagagem cultural que liga ao nosso passado, ou lidam com problemas relacionados com uma identidade europeia (problemas étnicos, por exemplo, de aceitação, de consciência, de procura): a Europa e as suas raízes de filosofia. A Europa e os seus educadores da moral, a Tora e a Bíblia, Deus, o Antigo e o Novo Testamento.

 

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“Before The Rain” de Milcho Manchevski

 

A Europa é tão significado da fonte de conhecimento e de valores que, para certos países de Leste (como os Balcãs), a Europa Ocidental é simboliza todo o mundo Ocidental, e o Ocidente é o símbolo daquilo que eles consideram que é o verdadeiro mundo civilizado, aquilo que eles vêm como um exemplo a seguir, algo a integrar. Mas, para nós, os Balcãs são o significado de um barril de pólvora prestes a explodir, instavel, onde todos os países são iguais entre si, países estes que, no fundo, têm practicamente as mesmas raízes que nós. Tendo sido governados essencialmente pelo império Bizantino, estes foram ocupados pelo império Ottomano e Austro-hungaro, começando aqui um “processo de diferenciação”. Neste, os Balcãs foram isolados do resto da Europa e das suas convicções, tendo que lidar com bases sociais e com uma religião distinta. Hoje em dia, depois de muitas guerras, os Balcãs tentam lutar pela sua aceitação na Europeia, e cada um destes países segue então o exemplo do país ocidental com que mais se identifica (França, Alemanha, etc.), adoptando para isso os seus próprio padrões, afastando-se dos seus países vizinhos (contrariando a noção de Balcãs como um todo) e tomando uma rota algo auto-destrutiva.

Se aceitamos a teoria de Balcãs, devemos então conseguir situá-los num mapa geo-político. Hoje em dia, nos mais diversos textos encontrados sobre o assunto, há quem defenda que o território conhecido como Balcã (e toda a carga de significado politico, social e cultural que isso acarreta) é o território da antiga Juguslávia, assim como há quem defenda uma área mais abrangente que se extende a territórios ocupados pelo império Ottomano e Austro-Hungaro, como a Grécia, a Turquia, a Albânia e a Roménia. Países que, com o cair do muro, não se integraram na Europa como os outros países da Europa de Leste (a Europa de Leste Central), pois através de muitos textos o Ocidente foi bombardeado com conceitos que diziam que estes povos eram (e são) ainda povos bárbaros. Uma outra razão para justificar o isolamento desta zona é que esta não se encaixa na “linha de pensamento Ocidental”: este bloco da Europa de Leste está para além da “fronteira cristã” europeia, que serve quase como um símbolo de unidade, como que o coração da Europa. Todos estes atributos associados a algumas dificuldades económicas e estruturais fazem com que se forme a ideia que associa os Balcãs como um conjunto de países do “terceiro mundo” sediados na Europa.

 

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“Underground” de Emir Kusturica

 

O choque da grande quantidade de étnias ali presentes (mantidas juntas aquando da presença de um regime comunista) observou-se na chamada “guerra dos balcãs” nos anos 90. Os países lutaram, então, pela sua independência e, mais que tudo, por poderem adoptar os padrões que achavam mais correctos para ingressar na Europa.

E isto reflecte-se nos seus filmes.

E isto reflecte-se no seu caos quase desumano.

E isto reflecte-se pela representação de várias etnias e credos

E isto reflecte-se pelas suas difícieis escolhas.

 

Os seus filmes, quase todos conterrâneos desta zonas, são, de facto, o resultado de enormes operações de produção e cooperação internacional. Filmes como os do Theo Angelopoulos, Emir Kusturica, Milcho Manchevski, Tanovic, Aleksandar Petrovic são geralmente apoiados por países como a Grã Bretanha, os Estados Unidos da America, a França, a Itália e a Alemanha, partindo tanto da antiga Juguslávia, Grécia ou dos países mais recentes como a Bósnia-Herzegovina, a Macedónia ou Sérvia-Montenegro (alguns países, recentemente, já estão independentes uns dos outros, sendo as referências dadas apenas em relação ao ano de produção de alguns desses filmes), mas realizadores internacionais já se mobilizaram e mostraram interesse e preocupação com o que acontecia naquela terra esquecida por Deus (e pela Europa): Elia Kazan, Manoel de Oliveira, Jean-Luc Godard, entre muitos outros.

 

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“No Man’s Land” de Tanovic

 

Fazendo uma breve referência a alguns destes filmes, podemos ver várias palavras-chave para os temas tratados neste tipo de cinema: a obrigação de ter que tomar partidos; o amor; a família (ou a falta dela); a procura de uma identidade perdida e a procura de encontrar seja o que for que nos faça sentir “em casa”; a guerra e/ou a tensão sentida em tempos de conflito; a relação entre várias etnias; o significado da fronteira; o êxodo (e o regressar); tudo apresentado num ambiente que consegue deixar o nosso imaginário à solta, pois desde o surrealismo da fotografia de Angelopoulos ao barroco de Kusturica, vendo uma realização que está ao nível de muitos filmes de guerra em “No Man’s Land” e assistindo à frieza e nudez com que é retratado o lado mais rural de alguns destes povos em “Before The Rain” é nos mostrado o que realmente se passa naquela zona, visto por alguém que é de lá, nasceu lá e viveu lá, e que viu como o Ocidente olha para este bloco de países. Desde os primeiros momentos cinemáticos dos Balcãs oferecido pelos irmãos Manakis (que viviam na Albania) nota-se a preocupação em documentar os costumes destes povos, conservá-los e publicá-los (visto que até fundaram um cinema e demonstraram preocupação em conservar os seus registos).

 

Talvez por isso estes filmes tenham o costume de se passarem em “espaços impossíveis”, onde se cria a ilusão de distânciamento (recorrendo a simbolismos como a fronteira) e de proximidade (como as aldeias em “Before The Rain”, os tuneis em “Underground”), mas sem cair no erro de não as representar devidamente. Como já foi referido, cada um destes realizadores, se viveu lá, saberá quais os pormenores que distinguem uma terra da outra, que língua, que costumes, que modos de vida, que roupa, a geografia característica de cada uma destas zonas. Em “Before the Rain”, apesar do realizador afirmar que este filme se realiza num espaço impossível, estão bem presentes em montagens inteligentes as diferências das duas aldeias, das planícies da Albânia às cordilheiras montanhosas da Macedónia. No “Underground”, estalou a critica pois, na sequência final, a batalha que vemos dever-se-á situar numa zona da Slavónia que batalha contra a Croácia (que foi representada com luz desfavorável neste filme). A referência ao Danúbio, os simbolismos à religião (mosteiros e templos de culto), referências a fronteiras e frentes de batalha no número que existem nestes filmes, não podem ser apenas uma coincidência, são sinal que as pessoas que os filmaram lá estiveram, e que viram o que querem que nós vejamos, com todo o rigor que eles entendem necessário.

 

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“Before The Rain” de Milcho Manchevski

 

Theo Angelopoulos na sua obra dedica 4 filmes à fronteira, à separação, ao isolamento. Emir Kusturica mostra-nos o caos que permanece naquela zona, à maneira como alguns grupos estão fora do nosso modo de vida (talvez como publicidade para tentar ganhar a aceitação do Ocidente, retratando-os de forma positiva e anunciando-os como uma minoria) retratando a sua excentricidade (como nos ciganos), a corrupção e o desejo de atingir um patamar superior na sua vida.

Tanovic e Manchevski em “Terra de Ninguém” e “Before The Rain” (respectivamente) mostram (embora de maneira diferente) a enorme dificuldade em ter de fazer escolhas, tomar um partido, e demonstram que, naquela zona, essas escolhas são necessárias e obrigatórias sendo encaradas como uma promessa de sangue. Milcho Manchevski dedica ainda tempo para mostrar como a situação fácilmente pode transbordar para fora daquela zona e atingir locais longinquos e suspostamente civilizados como Londres e demonstra ainda a difícil relação entre os vários países daquela zona e das enormes diferenças que cada um daqueles povos têm entre si.

O denominado cinema dos Balcãs (ou cinema dos estados dos balcãs) tem vindo a ganhar força nestes ultimos anos. Emir Kusturica conta já com duas Palm d’Or em Cannes, assim como Theo Angelopoulos pelo seu “Eternidade e um Dia” (a sua longa metragem “Olhar de Ulisses” perdeu a palma de ouro para o “Underground” de Kusturica), e Theo Angelopoulos têm na sua gaveta uma enorme lista de galardoações pela sua “Trilogia dos Balcãs”. Tanovic conseguiu o óscar de melhor argumento em “No Man’s Land” e Milcho Manchevski conseguiu cerca de 32 nomeações, apesar do filme ter tido fraca promoção (e terem sido feitas muito poucas cópias). É, então, de esperar que no nosso circuito o cinema desta zona se comece a afirmar com cada vez mais força, educando um pouco as nossas mentes que pouco ouviram sobre esta zona e que são bombardeadas pelo sensionalismo dos média.

J.P.L.

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~ por jplebre em Fevereiro 5, 2007.

4 Respostas to “…sobre o cinema dos balcãs”

  1. O teu melhor artigo. Eventualmente, porque não se pode falar sem fogo e força daquilo que se ama: e tu amas os Balcãs e o seu cinema. Confesso que, agora que vi “Undergorund” e me rendi à sua superioridade e excelência, também eu desejo conhecer melhor a zona e a sua arte. Aliás, depois de um ensaio destes, algo pode não o querer?

  2. Pelo que li caro amigo pianista fiquei orgulhoso de estar ao teu lado no mesmo curso. Acho que tens muito para dar. Portanto continua assim. E viva o Kusturica!!!!

  3. ACHO DIGO DE ACRESCENTAR!!!!!!!

    esta semana (18, 19 e 20 de Abril de 2006) realiza-se no Porto o festival audiovisual Black&White que conta já com participações internacionais: e qual não é o meu espanto quando vejo surgir uma curta metragem sobre a temática? e foi aplaudida pelo juri…

    Talvez esta seja a prova ao que escrevi de “O denominado cinema dos Balcãs (ou cinema dos estados dos balcãs) tem vindo a ganhar força nestes ultimos anos (…) É, então, de esperar que no nosso circuito o cinema desta zona se comece a afirmar com cada vez mais força, educando um pouco as nossas mentes que pouco ouviram sobre esta zona”

  4. Talvez esta seja a prova ao que escrevi de “O denominado cinema dos Balcãs (ou cinema dos estados dos balcãs) tem vindo a ganhar força nestes ultimos anos

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