“The Others”, de Alejandro Amenábar (2001)

Este é, como referi anteriormente aqui no re-bobina, um bom filme de suspense pronto a competir com os gigantes de Hollywood que, para além de apostar num cinema inovador, demonstra bem as suas raízes europeias. Aqui, não me irei focar na história ou numa sinopse do filme, mas vou tentar abrir o jogo às inumeras referências de uma “identidade” europeia que estão (mais ou menos) escondidas neste filme, e que o tornam tão rico e valioso.

Grace é uma viuva que, para além de tentar educar os seus filhos e lutar contra estranhos intrusos na sua mansão, acredita cegamente apenas no que aprendeu, no que lhe ensinaram e mostraram, levando-a a exibir indícios de um fanatismo religioso, fundamentado na ideia de um Deus tenebroso e vingativo (uma imagem espalhada pela Igreja durante vários séculos, mas que também, por vezes, nasce como resultado de más interpretações dos Evangelhos), acompanhado com um grande sincretismo de diferentes credos, que constrói a imagem da dona de casa e de “mãe a tempo inteiro” religiosa e supersticiosa cujo papel é ensinar os filhos tanto na cultura e nos valores que ela considera essenciais (como a família), assim como na fé cristã. Desenvolvendo esta ideia torna-se óbvio que, neste filme, surge a intenção de questionar a Igreja e a fé, simbolizando a quebra com a religião que se tem vindo a verificar já desde a segunda metade do séc. XX.

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Um destes sinais é a comparação da 2ª Guerra Mundial a uma Guerra Santa, como as Cruzadas, em que quem luta pelo lado dos “bons” pode ir para o Céu, mas quem luta pelo lado dos “maus”, os carniceiros, racistas e selvagens está destinado a ir para “um dos 6 infernos,” algo que os miudos neste filme sabem – ironicamente – descrever com pormenor.

Pelos seus filhos, que diversas vezes parodiam os textos sagrados, torna-se evidente que, embora apreendendo os valores morais que a Igreja Católica e Jesus Cristo têm para oferecer, começam a colocar pontos de interrogação nos textos que lêem. Afastam-se destas ridicularizando as suas palavras, mostrando que, no mundo real e no mundo actual, estas não iriam funcionar. Para além das situações pontuais em que as crianças manifestam algum espírito critico quanto à maneira como se deve interpretar a Bíblia, todo o filme é uma gigantesca metáfora que defende um pouco todos aqueles que se sentem injustiçados, abandonados por Deus. O filme começa com uma referência ao Génesis, que foca a criação do Universo por Deus. Mais importante ainda, foca concretamente a criação da Luz (Sol, Lua, Estrelas), coisas que estes miudos não têm direito a ver. Estes vivem nas Trevas, lidando com o sobrenatural, lidando com a morte de uma maneira que contraria todas as crenças católicas da ressurreição inscritas nos Livros Sagrados, o Céu e Inferno, e lendo textos sobre o que é uma família, algo que não têm.

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A família é, também, um dos elementos identificativos das raízes culturais europeias, a procura de uma família e como esta desaba se algum dos membros falha, sintomas bem vividos durante a 2ª Guerra Mundial e que já foi tema para inúmeras obras cinematográficas, teatrais e até musicais. Grace está à beira de um ataque de nervos, e não tem o apoio do seu amado e seu marido: este partiu para a Guerra e não se sabe onde está. A perda de um membro da família, as lutas constantes (contra os nazis e “os outros”) para preservar o lar como uma identidade e um refugio, o facto que a doença incurável dos seus filhos a mantem presa e sufocada mexe com esta, levando-a ao desespero. No local onde se desenrola a acção – as ilhas de Jersey – cria-se um “espaço impossível” que é claramente compativel com quase todo o território da Europa Ocidental, onde era comum ver-se os “homens da casa” a serem empurrados para a frente de guerra, nomeadamente para a França.

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Aparece também no filme outra matéria digna a que se dediquem umas palavras breves, embuida num velho album fotográfico algo idêntico aos daguerreótipos (pois estão emuldurados num género de um estojo de um valor elevado e ricamente trabalhado). Apesar da fotografia se ter desenvolvido quase em simultâneo entre dois pólos (EUA e a Europa), pode-se dizer que é uma herança europeia pois os primeiros feitos nesta área são atribuidos a Nièpce, Daguerre e Talbot. E se considerarmos que o significado ou o valor de qualquer fotografia se vê pela sua relação com prácticas sociais, instituições de poder, ou pelo seu contexto e avaliando o seu impacto no mundo, então nesta cena a fotografia tem um significado importante: o de preservar a memória, de servir de prova, de monumento, pois é-nos dito que as pessoas acreditavam que a alma poderia também ficar inscrita na fotografia. Embora isto nos pareça algo incompreensível, é fácil de se explicar o porquê desta dimensão espiritual da fotografia, e o porque da comparação desta com um qualquer monumento (que para o efeito deste filme, poderia ser um mausoleu, uma campa, etc.)

Numa primeira análise, a fotografia fornece-nos provas concretas. Hoje em dia sabemos que podemos contar com a fotografia para provar algo que nos aconteceu, algo que existiu e, por conseguinte, também poderemos dizer que “ele era uma boa pessoa… e agora descansa em Paz e nós levamos connosco uma recordação”. Noutro aspecto, e citando George Steiner, uma das coisas que define a Europa é a crença num fim, que tudo morre, que tudo poderá acabar, que trazemos sempre a morte e o fim na nossa memória: e a morte acompanha-nos sempre ao longo deste filme, ilustrando o nosso próprio esforço em tê-la por perto (para nos lembrar-mos dela), seja por exemplo na religião, nos cemitérios, no Dia dos Mortos – e já que neste filme a morte e a religião segundo as crenças cristãs estão a ser postas em causa, há que se arranjar outro meio de nos aproximarmos desta.

A fotografia aqui substitui os monumentos erguidos em memória dos mortos (como as campas) pelo caracter monumental da própria fotografia. Com isto quero dizer que, naquele tempo (segunda metade do séc. XIX na Europa), as fotografias eram vistas como algo que consegue captar muito mais do que o momento, pois elas levavam muito tempo a capturar o que viam. O seu tempo de exposição era muito superior ao instantaneo “click” a que estamos habituados, fazendo que todas as linhas e todos os pormenores da pessoa (e inclusivamente a alma?) ficassem mais “profundamente” registados – por esta mesma razão, as fotografias de Hill tiradas em cemitérios têem uma carga emocional e espiritual enorme. Para além do mais, esta nova técnica de reprodução muito exacta conferia às suas chapas uma qualidade como que mágica, sobrenatural: tanto que certos fotógrafos pediam aos seus clientes ou modelos para não olharem para a câmara, com medo que esta pudesse capturar, por exemplo, a sua alma.

 

A preocupação do realizador em não fugir do real torna este filme ainda mais rico e cheio. A morte é algo que nos rodeia, em que cada um é livre de opinar “o que acontece no outro lado,” e é bom notar que o realizador fez um filme real, real pelo menos para ele – já Truffaut dizia que o filme de amanhã seria aceite em proporção ao número de amigos que o autor tivesse. Ele tem o cuidado de justificar a condição dos rapazes com uma doença bastante real, a Xeroderma Pigmentosum, cujas pessoas que sofrem desta têm uma vida bastante limitada pois têm mesmo de evitar luz forte. E Amenábar preocupou-se também em arranjar um contexto bem real para o desenrolar a acção; e muito real até para nós, os Europeus.

Acredito que a queda deste filme no género do Fantástico ou do Suspense é puramente acidental, que só aconteceu numa tentativa de tornar mais real esta “relação com o além”, aliada ao sistema de realização que o “realizador mais americano espanhol” já nos habituou. No estúdio onde o som e a luz foram estudados ao pormenor assim como muitos dos planos que temos a oportunidade de ver, este constrói uma história em que os únicos vislumbres de efeitos especiais que vemos são um tiro de caçadeira disparado para o ar e uma folha provavelmente feita em CGI a voar pelo ar. Chega-se, também por aqui, a ter um reforço do que é a realidade. Se este filme for o retrato das suas crenças, porque não fazê-lo real e mostrar ao público quem realmente ele é?

J.P.L.

 

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~ por jplebre em Fevereiro 9, 2007.

2 Respostas to ““The Others”, de Alejandro Amenábar (2001)”

  1. De novo, ignorante me confesso. Nada vi ainda do Amenábar, apenas recebi em segunda mão o remake do seu “Abre Los Ojos”, com “Vanilla Sky”. Porém, tenho aqui em casa o último dele, o “Mar Adentro”: esta review que escreveste pode ter sido o tiro necessário para que eu me dispusesse a vê-lo mais imediatamente.
    É espantoso como tu estás embuído de uma forte consciência europeia – e fico, por isso, ainda mais contente por termso erguido este blogue juntos, uma vez que eu sou também marcadamente europeu e a Europa é uma questão que me apaixona, porque nela acredito, mas amedronta, porque por ela receio. Comecei hoje, só por curiosidade, a ler “Pós-Guerra”, de Tony Judt, exactamente sobre a Europa pós-1945.
    Isto leva-me a um último ponto. Mencionaste a importância da IIª Guerra Mundial no filme: devo dizer que, também sobre esse assunto (é sobre a Guerra Civil Espanhola, o prólogo da IIª Guerra Mundial), também do mundo hispânico (ainda que doutras paragens, do México), estou bastante ansioso por “El Labirinto Del Fauno”, do Del Toro: promete ser um grande filme – e mais uma boa reflexão sobre a Europa e a nossa condição.

  2. O “The Others” sai esta semana, penso eu, com a Visão, gratuito na compra da revista: tentarei aproveitar esta oportunidade para o adquirir e ver – depois, comentarei também a metragem.

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