“Flags Of Our Fathers”, de Clint Eastwood (2006)

Mais uma vez, o ignorante sobe ao estrado e balbucia, porque não lhe ensinaram a falar palavras completas e das palavras completas fazer frases. As Bandeiras dos Nossos Pais foi o meu segundo Eastwood, depois de Million Dollar Baby/Sonhos Vencidos (2004). Este último entusiasmou-me secretamente pela mitologia irlandesa que invocava (a minha alma nasceu na Irlanda – o corpo morreu em portugal), mas, à parte desse pormenor assaz pessoal, não vincou em mim um efeito duradouro. Reconhecendo-lhe o mérito, constatando a firmeza da mão do realizador, acompanhando o ritmo lento, mas correcto – não pude, todavia, chamar-lhe na cara «obra-prima», e genuflectir-me e tornar-me o sacerdote que incensava a bobina diariamente. Semelhante penso ser a minha reacção face a esta última fita de Clint Eastwood.

O filme constitui-se como uma reflexão céptica sobre o heroísmo, que é, evidentemente, o tema principal – senão absoluto – da metragem. Eastwood disse, numa entrevista a propósito de Million Dollar Baby que a técnica de um bom filme era somente narrar uma boa história. De igual modo, o realizador apoia a sua meditação num argumento que desconstrói a mitologia oficial por detrás de uma das mais icónicas imagens do século XX: o hastear da bandeira americana em Iwo Jima. Na verdade, como se refere no filme, a foto foi tirada no quinto dia de batalha, quando os combates estavam aind amuito longe de cessar. Pormenores tão simples quanto estes, foram, no entanto, convenientemente omitidos para o propósito da angariação de fundos para sustentar o esforço da guerra. A ideia do falso herói é, evidentemente, uma premissa de um potencial enorme. Seria mentiroso considerar que Eastwood a desperdiça – porém, não me escuso a dizer que não lida com ela da forma, quiçá, pelo menos para a minha sensibilidade pessoal (e por outra não posso avaliar, e por outra não me posso responsabilizar), mais apropriada. Uma abordagem irónica, cínica, sarcástica teria, porventura, sido mais rentável. Passos há em que o actor-realizador demonstra ter o savoir-faire a isso necessário (como se alguém duvidasse das capacidades de Eastwood – nada lhe nego, da magra amostra que tenho, em termos da qualidade da realização). Duas ou três cenas exemplificam bem o que tento transmitir: primeiro, a altura em que os «heróis» são servidos com uma extravagante sobremesa de cor branca que reconstitu, em miniatura, a fotografia, e, depois, o criado lhes pergunta se querem molho de morango, derramando-o, como sangue, sob a inocência da escultura: isto podia estar num livro de Eça de Queirós. Segundo, o conjunto dos vários discursos de Rene que, invariavelmente, como o velho anúncio da worten, tal um rio, desembocavam no pedido de fundos para financiar a guerra: na forma como os discursos, inicialmente sentimentais e dignos, resvalavam, como se estivessem na encosta de uma colina precipitando-se, sempre para assuntos de cariz tão baixo como o dinheiro, o argumentista conseguiu um olhar ácido que se teria agradecido mais vezes ao longo do filme. Terceira e última, a cena em qu, já para o fim, a família ambulante se fotografa com o «herói» (faço as referências de modo velado, para não se constituir aqui um spoiler desagradável) – se o filmes tivesse sido nesta tonalidade, ter-se-ia provavelmente ganho mais, visto que, de um modo geral, não me parece que se partilhe de sobremodo o drama interior daquela trindade de «heróis»: o filme falha em nos imbuir no espírito daqueles seres humanos normais, apanhados pela ocasião e a poderosa máquina de propaganda bélica americana. Não duvido, porém, que, para os americanos, seja uma amarga desconstrução de uma necessidade – a criação de heróis – que é, até um certo ponto, intrínseca ao povo estado-unidense: não sem razão, é nos EUA que surgem as comics da marvel.

A nível técnico, o filme apresenta-se de smoking, muito correcto: Eastwood sabe as regras do ofício. Destaco, a nível de montagem, a forma como passado e presente, bem como os três fios da acção se intercalam, de forma, a meu ver, sóbria e concordante. Não posso saltar uma referência a, neste campo, uma das melhores cenas: Chief, durante a batalha de Iwo Jima, adquire um olhar pensativo, como quem se lembra de algo – e somos transportados para o futuro, para o segundo fio da narrativa. Este é um inteligentíssimo jogo com as convenções da narratologia e as expectativas inconscientes do espectador: perante uma imagem daquele teor, tenderíamos a esperar uma analepse, um recuo às memórias de infância de Chief. Em contrapartida, retomamos um dos níveis da história, cronologicamente adiantado. No fundo, assistimos a, passe-se o paradoxo, uma lembrança do futuro. De facto, repito, a montagem sobressai neste filme. Se eu soubesse o que é uma realização «clássica», poderia adjectivar, como o fizeram os críticos, assim a realização de Eastwood. Como desconheço o conceito, limito-me a elogiar a sua competência. A banda sonora (também de Eastwood, o que foi uma surpresa, para mim) não é, de todo, desprovida, com um tema de potencialidades dramáticas não totalmente inexploradas – contudo, de uma maneira geral, não tem momentos de destaque e muito menos de brilhantismo. Se a montagem foi elogiada, a fotografia, porém, merece-o ser ainda mais: é o trunfo do filme, arrebatadora, única, perfeita. Há um enorme cinzento – o cinzento que dissolve o maniqueísmo entre o branco dos «heróis» e o preto dos «vilões» – que enche toda a tela, como se uma nuvem fizesse birra ali à frente e não se mexesse. A iluminação, as sombras, as cores: há uma sinfonia triste, um tom de chumbo e chuva. Graças e louvores se dêem a Tom Stern – que, aliás, venceu um Sattelite Award para melhor cinematografia, por este trabalho.

Em suma, Eastwood, como referimos, centra a técnica de um sucesso de um filme na estória que se propõe narrar. Inviolável em termos técnicos, com uma boa realização, uma sensível montagem e uma fotografia esplêndida, o filme, porém, desilude precisamente pela sua história que, se não se pode dizer que desperdiça o potencial inerente, é também verdade que não o rentabiliza o suficiente para alcançar a comunicação desejada com o espectador. Tendo em conta as apaixonadas reviews que temos lido do segundo tomo do díptico – As Cartas de Iwo Jima – esperemos que este segundo as confirme, suprindo assim a indolência com que, porventura, de uma maneira geral, recebemos o primeiro, mau grado as suas competências meramente cinematográficas.

J. D. L.

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~ por silent_dark em Fevereiro 28, 2007.

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