“Eternal Sunshine Of The Spotless Mind”, de Michel Gondry (2004)

Michel Gondry é um realizador que merece umas palavras de introdução. Antes de mais, é um Designer: alguém que não é técnico ou artista, mas sim ambos. Alguem cuja arte serve um propósito (quanto mais, pelo próprio prazer de a fazer – ao fim ao cabo é também um propósito) com objectivos bem definidos, e recorre a uma formação interdisciplinar, tendo de se deixar levar pelo(s) mundo(s) que o seu trabalho lhe exige. Michel Gondry é conhecido pelos seus videoclips e experiências visuais que lhe vieram dar fama ao longo dos anos, trabalhando com artistas de renome como Bjork, The White Stripes, Massive Attack, entre outros.

A luz apaga-se, as cortinas abrem e o projector dispara os primeiros raios de luz, filtrados pelos “frames” da verdade… ao longo de quase duas horas estamos completamente embebidos no mundo de Michel Gondry, nas suas preocupações, sonhos, sentimentos e memórias, uma missão quase impossível de se realizar e algo bizarra de experimentar dado a quantidade de informação disponível sobre este artista. Gondry é um realizador que nos quer transmitir os seus sonhos e o que vê no seu subconsciente, evitando uma psicanalise freudiana e limitando-se à sua visão como artista, que lhe permite manipular os exageros latentes no subconsciente, as construcções e desconstrucções de memórias numa ordem não linear, manipulável.

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Esta construcção e desconstrucção da mensagem está presente em “O Despertar da Mente” – aliás, esta é a base de todo o seu filme. Podendo parecer um filme confuso e sem um fio condutor, este é até bastante simples e acessível: basta apercebermo-nos de como a nossa mente funciona, de como armazenamos as nossas memórias. Passo a explicar – muitos de nós bloqueiam o que chamam de “más recordações” bem no fundo do nosso consciente mas, de um momento para o outro, estas saltam: porque será? No meu caso, tenho um “trauma” a pimentos e sempre que sinto o cheiro a estes, os sintomas pouco agradáveis que geraram o trauma regressam: isto para dizer que a nossa memória muitas vezes funciona por associação, relacionando no subconsciente acontecimentos distintos, só porque têm algo em comum, seja uma frase, uma palavra, um objecto, um cheiro, um medo. No filme, vemos os cenários e as mensagens a serem desmontadas e montadas, associadas e “apagadas” diante dos nossos olhos, dando nos a ilusão de o filme ser um gigantesco puzzle de memórias, e que a história é circular e pode nunca acabar… “Desculpa, não fiz por mal, mas já me conheces sou impulsiva!” – quantas vezes já terão apagado a memória um do outro? Quantas vezes terão regressado à sua relação?

Com base neste relacionamento das memórias, Michel Gondry conseguiu desconstruir por completo toda e qualquer relação da mensagem a um plano de uma maneira que permite que nós ainda sejamos capazes de receber a mensagem. Por várias vezes, passamos por planos onde já tinhamos estado mas onde a cada passagem lhe são retirados elementos, elementos como o som, luz e vários outros elementos que usamos para reconhecer a imagem, a acção (rostos de personagens, rotulos e ruas inteiras, por exemplo) e nós mesmo assim conseguimos associar tudo o que está a acontecer. Passamos também por cenários (como a livraria) onde são retiradas todas as capas aos livros e limpas todas as placas – mesmo assim nós conseguimos saber onde estamos no mapa mental do Joel.

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No meio de todo este cruzamento de informação, nota-se uma outra mensagem que sobrevive para além de toda a memória: o que faz de nós tão diferentes e distintos: a alma, o amor, “…the eternal sunshine of the spotless mind” – o que nos faz continuarmos nós, o que faz alguem gostar ou não de nós. No fim, vemos que podemos apagar toda a memória mas continuamos a ser nós e tudo é como tem de ser (se acreditarmos no destino, ou até mesmo simplesmente no amor): Joel pensa, quando a Clementine lhe tirou a coxa de frango sem esperar por uma resposta, que era tão estranho a sensação de intimidade que aquela cena lhe deu – muito provávelmente como um sinal que aquela história já se tinha repetido antes, que já haviam estado juntos.

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Penso que facilmente nos conseguimos aperceber de que o filme é de “nós” e para “nós”, que aqueles são os erros que as pessoas facilmente cometem, os de ignorar a sua vida e enterrar as suas memórias. O filme é uma boa lição de vida (e de amor) numa peça de arte subliminar que o realizador Michel Gondry nos oferece.

J.P.L.

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~ por jplebre em Março 14, 2007.

Uma resposta to ““Eternal Sunshine Of The Spotless Mind”, de Michel Gondry (2004)”

  1. 1. não consigo gostar deste filme.
    2. porque está a frase do Godard em inglês?

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