Caminhos do Cinema Português XIV [Sessão 23/07, 17:30]

Hoje tive a minha primeira experiência num festival de cinema. Fui ver uma sessão dos Caminhos do Cinema Português, XIVª edição, no TAGV, em Coimbra. Não escolhi a sessão por causa dos filmes exibidos, mas simplesmente porque era a única à qual podia ir. Devo acrescentar também que não ia com grandes expectativas, pois, como bom português, desconfio do que é português, mau grado as exclentíssimas experiências e triunfos que são a Alice, de Marco Martins (2005), e A Suspeita, de José Miguel Ribeiro (2000) – possivelmente, os dois únicos filmes portugueses que tenho mesmo orgulho em dizer que amo. Aqui vai pois uma curta análise, escrita rápida e sentimental, das quatro metragens a que pude assistir, todas produzidas no ano passado.

Sem Dúvida, Amanhã…, de Pedro Brito (curta-metragem de animação à mão)
Devo confessar que, pessoalmente, o desenho não me agradou de sobremaneira, mas isto, reconheço, cai no âmbito do gosto. O argumento esse, em torno de identidades perdidas (ou deverei dizer «roubadas»?), tem até um certo potencial que nunca é espremido, mas só superficialmente é utilizado: compreendo, no entanto, que isto se deve à curta duração do filme, que mais não podia fazer. Desagradou-me só a voz do personagem principal, apressada e, espante-se, com todas as inflexões, ainda assim, monocórdica! Não posso dizer que seja mau, mas dizer que é bom é estar quase a recomendá-lo, coisa que decerto não o faço, porquanto é somente um visionamento que não aquece nem arrefece – e isso é perigoso.

O Pescador de Sonhos, de Igor Pitta Simões (curta-metragem de animação a computador)
Este foi o filme, dos quatro, que valeu o parco bilhete de dois euros. Em dez minutos, sem uma única palavra pronunciada, esta pequena curta (perdoem-me a repetição, mas é afectuosa) conquistou um lugar nos meus sentidos, impondo-se ao espectador, levando-o, pela narrativa e pela música fascinante, a um outro reino, de simplicidade e uma certa surrealidade. Um ou outro pormenor ligeiro, pessoalmente, altera-lo-ia. E depois há animação, que, estivera nas mãos da Pixar (que é como quem diz, fosse um grande estúdio com maiores meios), seria sem dúvida algo diferente e, com mágoa, mas não derrota!, o reconhecemos, melhor. Porém, é um grande e vencedor esforço da Zeppelin Filmes, exactamente a mesma companhia de A Suspeita. E confirma-se o que já há algum tempo tenho vindo a pensar: o melhor do cinema português é a sua animação.

A Cura, de José Barahona (curta-metragem)
Este é, de longe, por um lado, o objecto mais convencional desta mostra de quatro filmes e, por outro, o mais estranho. É o mais convencional no sentido que, com a sua meia-hora de duração, sendo uma curta, é, no entanto, a coisa mais parecida aqui com um filme «normal» (os dois anteriores eram de animação e o última, um documentário). É, porém, o mais estranho, porque tem, de facto, coisas esquisitas. Primeira nota, o argumento encontra-se bem escrito: não tem nenhuma frase que fique na cabeça, mas flui naturalmente e com uma certa inteligência e mistério, com um final até, confessemos, interessante (o que não quer dizer surpreendente; será antes mais não-esperado, na neutralidade do termo). Há um ou outro frame em que a cinematografia é soberba (penso numa cena ao pôr-do-sol, algumas sequências com as aves, e no tempo em que o pintor contempla, guardados, os seus quadros). Há ainda um jogo engraçado do editor em dois momentos, em que sobrepõe duas acções que, na realidade, não decorrem em simultâneo, antes uma acaba onde a outra começa. Mas aqui acaba o que este filme possa ter que mereça referência elogiosa. Os actores são completamente inexpressivos e dificilmente me terei sentido num outro filme tão perturbado com a falta de jeito dos actores como neste: a personagem feminina, Helena, não resulta de todo e o pintor é artificial na sua representação uniforme e inexpressiva. Contudo, acima de tudo, o que me irritou neste filme é ele ser tão português, com todos os defeitos – menos o argumento que, mantenho, está até interessantemente escrito – próprios de um filme português. Todos sabemos reconhecer um filme português só de olhar para a tela, por causa daquelas cores, daquela tonalidade, daquela fotografia que é ausência de fotografia. O mesmo sucede com A Cura. Sei que o que escrevo entra em directa contradição com as cenas cuja cinematografia louvei anteriormente, mas eis por que razão esta fita é tão estranha, por congregar em si momentos que, mantivera o filme aquela qualidade, seria obra superior, mas, ao mesmo tempo, estes conviverem com a mais perfeita banalidade e mediocridade da cinematografia portuguesa. De igual modo sucede no que toca à realização, em momentos estrondosamente má, com a câmara excessiva e estupidamente tremida: isto não é cinema verité. Se as minhas palavras soam, porventura, agressivas, é porque neste filme reencontrei, como a um espelho, tudo o que eu critico no cinema português que, se existe como conceito, é por esse conjunto abstracto de pormenores que o meu desconhecimento da linguagem e técnica cinematográficas não me permite listar mas que, todavia, se encontram presentes em todas as produções lusitanas e as tornam pronto reconhecíveis. O desgostos-raiva é maior tanto mais que o presente filme – veja-se o genérico inicial e alguns pormenores (ah!, as mãos vermelhas de tinta sobre a carne dos amantes no leito!, o breve vislumbre da superioridade de que o realizador abdicou!) – tinha, pelo seu argumento, possibilidades de ser, senão bom, pelo menos satisfatório – e não o é.

Batalha de La Lys, de Rui Pinto de Almeida (documentário)
Documentário sobre a batalha de La Lys, bastante claro e líquido, com uma ou outra cena à BBC, eventualmente dispensável pela simples razão de que a RTP2 não é a BBC e não consegue produzi-las com a mesma qualidade ou integrá-las tão bem como o canal britânico estatal. Ainda assim, não é uma tentativa de emulação totalmente fracassada, merecendo a sua menção da minha parte.

No final, rabisquei a classificação dos filmes num papel previamente distribuído à entrada, para permitir a atribuição do Prémio do Público. Quando se souberem os resultados, logo os partilharei aqui. Não devo ter outra oportunidadede ir ao TAGV, mas reconheço-me cinefilamente feliz por, enfim, ter vivido, ainda que pouco, essa experiência única que, como Paredes de Coura da Sétima Arte, são os Festivais de Cinema.

Frame de O Pescador de Sonhos, de Igor Pitta Simões, certamente o melhor filme, dos quatro, que nos foi concedido ver e mais uma prova da vitalidade da Zeppelin Filmes e da animação portuguesa como um todo, depois do triunfo internacional recente de Regina Pessoa. Recomendação: Pesquem Este Filme.

J. D. L.

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~ por silent_dark em Abril 23, 2007.

4 Respostas to “Caminhos do Cinema Português XIV [Sessão 23/07, 17:30]”

  1. Obrigado pela crítica a La Lys. Foi importante construir a narrativa de forma clara e multifacetada. Não pretendi (pretendemos) cair na lamecha dos desgraçados dos portugueses que cairam na Flandres. Pretendeu-se enquadrar a realidade do momento, a conjuntura e os aspectos estruturais da nossa sociedade. As reconstituições foram importantes, pecando por serem menos do que as necessárias e demasiado para o orçamento em causa. Mesmo assim, as audiências valeram 3,9% na 2:, a um sábado, véspera de Natal. Um abraço, Rui Pinto de Almeida

  2. Quanto à sessão que também tive a oportunidade de ver. Para mim, O Pescador de Sonhos, foi sem dúvida um dos melhores filmes de animação que observei, pela sua forma simples, pelo seu lado poético, pela música, por tudo…

  3. ‘os mutantes’ teresa villaverde
    inesquecível e português….

  4. Bem, vou responder a cada um dos dois separadamente:

    Antes de mais, devo confessar a minha supresa total quando vi que o próprio realizador “in persona” tinha lido e comentado a minha crítica! Por certo, o meu humilde e rápido comentário não mereceria uma tal honra. Devo confessar que também não sou a melhor pessoa para comentar documentários e que, por isso, foi-me mais fácil sublinhar aquilo que, digamos “negativamente”, me chamara mais a atenção do que propriamente estender a parte elogiosa. Porém, juntamente com o “Pescador de Sonhos” foi o filme a que dei uma classificação mais alta. Não digo isto para, agora, tentar como que amenizar o que escrevi. Compreendo os condicionamentos que afectaram a produção e devo dizer que não achei, de forma alguma, lamechas a reconstituição, somente não é, direi, muito o meu estilo. Agora, reafirmo também o que disse quanto ao documentário ser directo e claro: penso que ninguém ficou com dúvidas de como tudo se desenrolou. Vi agora recentemente na Internet que se está a realizar um filme sobre La Lys. Porque penso que será do interesse de quantos estiveram envolvidos neste documentário, aqui fica o link:http://www.lalys-ofilme.blogspot.com/

    Pena minha, pena minha, não vi nem “Os Mutantes” nem o premiado “Transe” (que ganhou o prémio máximo em Coimbra)! Como eu escrevi na confissão com que inaugurei este blogue, eu sou não um cinéfilo, mas um filocinéfilo, aquele que quer vir a ser um cinéfilo. Falta-me ver muita, muita coisa: e eu não estou senão no começo muito inicial do meu caminho. Porventura, quando vir ambos os filmes, poder-me-ei juntar ao coro de elogios. Por ora, tenho de me restringir ao triste silêncio…

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